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Aquele corpo, que eu já não conheço de cor



Já não conheço de cor aquele corpo.
Sei exactamente a cor da sua pele, sei exactamente o aroma do seu cheiro, sei exactamente os caminhos das suas linhas, conheço exactamente o seu toque, mas já não o conheço de cor.
Sei exactamente o que sentiu o meu corpo, que conheço de cor, quando conheceu o outro, sei exactamente a cor da minha pele, sei exactamente o aroma do meu cheiro, sei exactamente os caminhos das minhas linhas, não conheço exactamente o meu toque, mas conheço o meu corpo de cor.
Sei de cor o que esses corpos sentiam quando se encontravam, descobrindo-se um ao outro, conhecendo-se de cor, sentindo cada movimento tão pormenorizadamente, que esses mesmos corpos, inevitavelmente, se tornavam num só.
Lembro-me de olhar no espelho e observar atentamente, a junção dos dois, de dois corpos que se conhecem de cor.
Já não conheço aquele corpo mas conheço o meu corpo de cor.
Já não conheço aquele corpo, porque não o vejo, porque não o amo, mas conheço o meu corpo de cor, porque não preciso daquele corpo para o conhecer.

Tela Imortal



Uma nuvem de fumo passa, por entre nós
Olha-me, um corpo despido, verticalmente intacto
Um momento com uma proximidade mínima
Leves brisas, apuram esses breves segundos
Pinta cada centímetro de pele, de uma cor jamais existente
Observa cada milímetro rítmico, cada movimento cometido
Sente, esse sentir que não mais se poderá repetir
Metade da tinta, Sou eu, a Outra Metade, és Tu
Une-te a mim, neste anseio de desejo descontrolado, como um hímen
Solta pedaços fragmentados desse corpo despido e verticalmente intacto
Guarda a cor dentro de ti, dentro dessa tela imortal e única
Que pintámos os dois
Num momento, chamado eternidade!




Hera , 25 Junho 2008